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Para se ouvir este álbum aconselho primeiro a colocarem de parte os “modernos” conceitos de alta-fidelidade dos CDs AAA, SACDs, Blue-Rays e outras siglas que por aí andam e a pensarem no velho vinil e nas gravações cheias de noise dos anos 70. Pois é aí mesmo que começa a história deste álbum, mais precisamente em 1971, ano em que se forma a banda Death. Formada em Detroit por 3 irmãos, de seus nomes David, Bobby e Dannis Hackney, viriam a converter-se ao rock depois de uma breve incursão pelo R&B. Numa altura em que as definições da música pop eram limitadas, o termo punk em 1971 ainda era praticamente desconhecido. Na literatura o punk surge no início de 70s por bandas como Ramones ou MC5. Também se atribui a Iggy Pop ou aos Velvet Underground - que praticavam um rock mais cru e sombrio - a origem do movimento, sendo que na altura do lançamento destas bandas predominava simplesmente o termo rock. Há ainda quem refira bandas anteriores a estas como os The Who, The Sonics, T.Rex ou mesmo The Kinks como antecipadores do movimento mas, e a história veio a provar isto, nunca tiveram as características emblemáticas do punk. Pois é de punk que aqui se trata. Este álbum vale mais pelo seu valor histórico do que outra coisa, parece-me. Mas ainda assim dá uma visão do que foram os primórdios da música punk. Este disco dos Death é uma mistura com laivos psicadélicos que eram moda à época, como a seguir veremos. Mas chega de políticas e sejamos mais pragmáticos. As 7 faixas que aqui se encontram são o resultado de um álbum que não chegou a sair em 1975 onde estavam previstas inicialmente 12 músicas (“Onde estão as restantes 5, se é que foram gravadas?” – convido-os a perguntar à editora pois também gostava de saber). O som que tocavam era o sumo mais ácido do que se fazia na altura, as influências de Black Sabbath, dos Stooges - ouça-se Raw Power e ouça-se os solos simples e rápidos decalcados daí – ou mesmo dos psicadelismos dos Pink Floyd ou Cream – os primeiros estavam prestes a lançar a obra-prima Dark Side Of The Moon… Mas o som destes Death não se fica por aqui: apesar daquelas investidas psicadélicas é na maior parte das vezes mais próximo do que hoje chamamos punk, e aqui sim está o verdadeiro valor do álbum – recorde-se que o Never Mind The Bollocks só iria conhecer a luz do dia daqui a alguns anos, em 1977 – com escalas simples, ritmo rápido e “verso, refrão, verso”. Nas vozes tudo também muito simples, sem quaisquer efeitos. Desconheço as tecnologias que à época se usavam para gravar as pistas dos vários instrumentos mas o que se nota é que a guitarra-solo possui uma distorção aceitável (arriscaria dizer que se ouve sempre o mesmo pedal) enquanto a guitarra baixo foi nitidamente deixada para trás nesta gravação, ouvindo-se sempre muito distante. Já a voz está razoável e bastante forte onde deve de aparecer mais. Mas o que interessam esses pormenores? O que interessa é a descoberta deste material que ficou 34 anos a ganhar pó numa qualquer prateleira da editora. E desnecessário será dizer que vem numa altura em que estamos constantemente a ser bombardeados por mais do mesmo e uma coisa bem diferente sabe sempre bem. O álbum é constituído por 7 faixas: a primeira “Keep On Knocking” destaca-se por parecer retirada directamente de um qualquer álbum do Iggy Pop ou mesmo um lado-B desconhecido de Rolling Stones, na altura do Sticky Fingers talvez. Diria mesmo que esta faixa podia já ter tocado mil vezes na rádio; soa a familiar, é inexplicável – ok, mesmo que não tenham interesse neste álbum ouçam esta “Keep On Knocking”, façam este favor a vocês próprios. A seguir, e no caso de gostarem e só nesse caso, ouçam o resto do álbum. Se gostarem mesmo muito e não tiverem nascido nem nos anos 50 nem 60 então, e se não conhecerem já estes álbuns que referi, aconselho a procurá-los. Se ainda assim não ficarem satisfeitos e arrancarem cabelos e caírem em catarse por não terem vivido aquela época de ouro e não poderem ter visto os 4 principiantes Led Zeppelin ou os Stones sem rugas então procurem ajuda profissional. Voltando ao disco: chegamos à 3ª faixa “Let The World Turn” e a primeira pausa nos ritmos. Ária lenta e com vozes à là Bee Gees (?) até quase meio, a partir do qual volta a bateria rápida e os solos de guitarra mais psicadélicos que nunca. E é nesta faixa que acontece um dos momentos mais estranhos do álbum: um solo de bateria. Fiquei sem palavras. O psicadelismo e space rock no seu melhor? Outra das faixas que se destaca é a “Where Do We Go From Here?”, onde o refrão orelhudo fazia prever – se isto fosse lançado em 1973, claro – um excelente single para as rádios. A faixa seguinte – e última – de título “Politicians In My Eyes” usa e abusa da crítica social e política que viria a estar tão em voga anos depois com as verdadeiras e puras bandas punk como Dead Kennedys, por exemplo. Mas mais uma vez soa a familiar com a melodia a embalar q.b. O som distorcido em pós-produção é evidente – um bom trabalho, leia-se – e deixa-me a pensar que sucesso iria ter um álbum que nunca o foi. Em 2009 obviamente não irá ser êxito de vendas mas mais uma obra de coleccionador que se junta a tantas outras que nos dão uma boa ideia da revolução que a música pop sofreu nos anos 70 – havia tanto por decidir no mundo, o rock era uma criança e o Brian Jones e o Sid Vicious ainda eram vivos. Nota: podem visitar o myspace para ouvir um pouco dos Death mas deixo-vos aqui uma faixa disponibilizada pela editora da qual podem fazer o download: http://www.dragcity.com/mp3/DEATH_Politicians.mp3
Tracklist:
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