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Abr 28 2009
Entrevista | Pyroscaphe
Escrito por Pedro Pereira   
28-Abr-2009

Pyroscaphe
Pyroscaphe
Os Pyroscaphe acabam de nos brindar com uma auspiciosa estreia, “Undergod/Underdog”. Motivo mais que suficiente para motivar dois dedos de conversa.

1.“ Undergod/Underdog” chega-nos através duma editora norte-americana, a Poison Tree Records, que diga-se têm um catálogo impressionante. Como chegaram até eles?
Figas – Antes de mais, queriamos agradecer-te o convite para esta entrevista. Quanto à Poison, foi precisamente o contrário. Eles é que chegaram até nós! O responsável da editora é um tipo experiente, e muito atento ao que anda por aí. Soube ver no myspace uma arma poderosa, e daí o tamanho do catálogo. Ao contrário do que parece, ele é que procura as bandas, e foi precisamente o que nos aconteceu.
A Poison fazia parte do nosso grupo de amigos quando disponibilizamos no myspace os 2 primeiros temas originais. Não demorou mais que uma semana até que ele nos contactasse. Depois foi só uma questão de ponderação entre eles e outras propostas.


2. Reparei no website da editora que o vosso tema "Devilish Resident", roda insistentemente no player da página de entrada. Sentem de algum modo que são uma das apostas deles?
Figas – De certo modo, sim, claro! Eles fazem-nos sentir dessa forma, e efectivamente, desde que nos “conhecemos” que só houve mais uma banda nessa página, e que faz parte do catálogo deles há mais tempo.

Convenhamos que esse destaque nos coloca, neste momento, como a “intro” da editora para o mundo!
Mas já que falas disso, mais importante até que este destaque é o facto da Poison ter negociado o nosso contrato de publishing com uma das maiores empresas distribuidoras de música para filmes e série de Los Angeles, colocando-nos assim num catálogo seleccionado de apenas 10 artistas de que esta empresa dispõe.
 Quer isto dizer que a qualquer momento pode aparecer um tema dos Pyroscaphe numa produção de Hollywood!

3. A edição da Poison Tree Records é digital, o que vos coloca em plataformas como o iTunes ou Napster. Tem planos para editar o disco em formato físico?
Figas – Sim, apesar de ainda não termos nada em concreto sobre isso. Existem várias hipóteses em aberto, as quais estamos nesta altura a analisar.

4. Os vossos conterrâneos Mão Morta revelaram a propósito do disco “Nus”, que nenhuma das editoras a que apresentaram o disco, o quis lançar. Curiosamente ou não haveria de ser um dos discos desse ano. Suponho que tenham sondado algumas editoras nacionais, sentiram essa falta de vontade em arriscar em novas bandas?
Figas – É uma questão delicada. No fundo, para as editoras, isto é tudo negócio, correcto? Se pensares assim, a maioria dos fenómenos explica-se mais ou menos bem.
Os Mão Morta, que deu como exemplo, são uma referência incontornável e uma das nossas bandas mais importantes. Eu por mim falo: se fosse dono de uma editora, teria medo de fazer asneira com um trabalho deles, nomeadamente o “Nús”, que considero excepcional. Uma má estratégia promocional ou mau timming poderia ser prejudicial para ambas as partes.
Por isso, e só por isso, compreendo que haja alguma prudência. Relativamente às bandas novas, a questão é semelhante: não sabes o que vem efectivamente dali.
Pode ser um projecto sólido, pode ser um fenómeno do momento, ou pode ser um flop de proporções bíblicas. De qualquer maneira, talvez se houvesse cá em Portugal meia dúzia de tipos como o responsável da Poison, talvez as coisas fossem diferentes.

5. Embora de um modo geral se possa dizer que “Undergod/Underdog” é um disco de rock alternativo, notei muitas coisas do som de Seattle, sobretudo aquelas bandas com maior predominância de influências blues. Concordam? É isto que vos move?
Figas – Para nós e engraçado achares isso, e mais ainda porque não és o único! A verdade é que nenhum de nós alguma vez passou pelo grunge, nem como consumidor, apesar de ainda assim o leque de influências ser grande. Não queria descambar para clichés, mas a realidade é que nunca nos chateamos muito com o que poderia vir a ser o resultado final.
Na predominância do blues, aí sim, tens razão. Há aqui um historial de blues e rock dos ’70, e talvez tenha sido esse um pouco o ponto de partida. Agora a chegada...

6. As vossas letras são um pouco sombrias, sei que deixaram o trabalho de escrita a um terceiro. Deram algumas linhas orientadoras neste campo, ou deixaram tudo nas mãos da Susana Noronha?
Figas – O Fred é a pessoa mais indicada para te responder a isso, porque foi quem trabalhou directamente com ela. Penso que, mais do que linhas orientadoras, foi mesmo uma simbiose entre a parte lírica e a melódica, porque o Fred não desliga uma coisa da outra.
Fred – Sim, a intenção era construir uma continuidade entre sons e palavras. As músicas do nosso primeiro álbum são marcadas por uma sonoridade obscura que nos sugeria a edificação narrativa de um mundo negro e decaído. Assim surgiu a ideia de um lugar feito de ruas escuras onde se contam histórias trágicas e sinistras.
Ironicamente, nas canções/histórias que deram nome ao álbum, a única personagem que caminha ou nos aponta para a redenção é um elemento não humano – um espantalho.

7. E o título do disco “Undergod/Underdog”, suponho que seja alusivo à vossa terra natal, Braga?
Figas – Hehehe, outra pré-concepção que já começa a ser corrente, embora noutro contexto que não o nosso até pudesse ser compreensível. Não, por acaso não tem nada a ver, mas eu passo a explicar: este álbum foi concebido desde o início como sendo um álbum temático, com o objectivo de retratar algumas das figuras que vivem actualmente à margem da nossa sociedade, ou seja, as vítimas dela.
Cada tema é dedicado especificamente a um estereótipo: alcoólicos, jogadores, mendigos, etc. O título acaba por ser um reflexo disso mesmo, tentando ilustrar o contraste entre o limiar da pobreza e da ruindade/maldade/marginalidade. O pormenor castiço da história foi termos construído a tracklist de forma a colocar nas duas últimas faixas precisamente os temas “Undergod” e “Underdog”.

8. Não é de agora, mas nos últimos tempos temos recebido muitos e bons discos de bandas de Braga. Vislumbram alguma razão especial?
Figas – Penso que Braga estará a viver uma nova era de ouro, por assim dizer. A geração anterior à nossa costuma referir várias vezes Braga durante os anos 80. Houve várias coisas a acontecer ao mesmo tempo, que fizeram com que a cidade ganhasse um estatuto culturalmente importante: a “Fábrica”, onde os Xutos deram o concerto mais memorável da vida deles, o nascimento de bandas como os Mão Morta, precisamente, a noite, etc. Dos anos 90 para frente entrou numa espécie de hibernação.. provavelmente será cíclico, não sei, mas o certo é que está a renascer.

De resto, o que se está a passar aqui é um pouco o fenómeno que já se tem vindo a manifestar em cidades como Coimbra, Lisboa, Leiria, Porto, etc, onde nascem nichos de bandas e de estilos, intrínsecos a estes sítios, e que são tão fortes e distintos que se fazem ouvir no país todo.

Como é que surgem, não sei, lá está, talvez seja cíclico. No caso de Braga, as salas de ensaio que a câmara disponibilizou serviram bastante de “empurrão”, porque se concentra ali o grosso das bandas que estão a ganhar destaque, ou que já o têm. Os músicos cruzam-se com facilidade, de todos os “escalões”, idades e estilos, e os meios estão ali à mão para o que der e vier.

9. Reparei na ausência de concertos na vossa agenda, poderemos ver os Pyroscaphe a tocar por aí durante 2009?
Figas – Podes ter a certeza que sim!! Se tudo correr normalmente, não tarda nada e estamos aí a aparecer. Desde o lançamento do disco que temos estado a preparar o nosso espectáculo ao vivo, e simultaneamente a colocar em funcionamento os meios necessários para a respectiva promoção.

Para já não temos nada confirmado, nem vou aqui lançar dicas, mas assim que tenhamos algo em definitivo, vamos fazer tudo ao nosso alcance para espalhar a palavra!


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