Fev
18
2010
| Entrevista | Miss Lava |
| Escrito por Pedro Pereira | ||||
| 18-Fev-2010 | ||||
![]() Miss Lava
Em 2009 o stoner-rock nacional entrou finalmente num nível incandescente, culpem-se os Miss Lava pelo facto. “Blues For The Dangerous Miles”, mostra em 10 investidas como se faz rock musculado sem perder de vista a veia melódica.
Depois de trilhado o circuito de salas nacional, os lisboetas honraram recentemente a camisola nacional na primeira parte dos seminais Fu Manchu. Enquanto a rapaziada não hiberna para estúdio, aproveitámos para trocar algumas palavras. Leiam tudo clicando em "Ler mais ..."
1. Como é que gente vinda de tantos “sítios” diferentes se agrega e lança um petardo como este “Blues For The Dangerous Miles”?
O próprio título do álbum refere-se a isso mesmo. Cada um de nós, à sua maneira, começou esta “viagem”, muito antes de Miss Lava existir. Em todos os nossos projectos anteriores, não nos foi possível criar música completamente à nossa imagem, com uma vertente mais rock, havia sempre alguém a puxar para outros “caminhos”. Felizmente, e apesar de sermos pessoas muito diferentes, temos todos em comum o Rock. E foi isso que nos meteu no mesmo caminho. O importante para nós, como músicos, sempre foi lançar um álbum de “rock in your face” e, claro, conseguir lançar o nosso álbum, alcançando o tal “petardo” que mencionaste, deixa-nos bastante contentes. Foi um processo muito desgastante, onde todos tiveram que dar o litro e, se não fosse toda essa frustração acumulada e toda essa persistência, esta “viagem” nunca teria acontecido. Acima de tudo podemos dizer que foi uma “viagem” que começou sem nos conhecermos, mas que vai continuar a quatro, com base numa grande amizade e com um objectivo comum, que é fazer este heavy rock!
2. Asseguraram vocês próprios a produção, ainda que deixando as misturas na mão do conceituado Jens Bogren. Podemos falar de simples contenção financeira ou numa certeza daquilo que pretendem para o vosso som?
Um pouco das duas. Cada um de nós, além dos Miss Lava, tem o seu trabalho e como não somos filhos de pais ricos tivemos que ter alguma contenção financeira (ahaha). Mas não o teríamos feito se não nos sentíssemos capaz de o fazer. O facto do nosso baixista Samuel Rebelo ser engenheiro de som facilita muito as coisas. Ele sempre soube perfeitamente o som que queria para a banda, e para isso o seu know-how foi uma mais-valia para reunimos as condições ideais para cada um captar o seu instrumento. Mas, para além do Samuel, e de nós próprios, a nossa produção teve várias presenças importantes, especialmente o Ricardo Espinha, que teve um contributo fundamental para o resultado final do disco. Entre várias contribuições, foi ele que gravou todas a vozes do disco, e juntamente com o Johnny, ele é também responsável por vários arranjos de voz. Em relação à escolha do Jens Bogren, tem a ver essencialmente com o sentimento do que queríamos no disco, em termos de produção, ter peso aliado a definição, conjugando a “crispness” mais típica de um disco FM com a presença assumida do grave arrastado de um baixo muito sludgy. E isto não é fácil. Se muitos produtores fazem misturas em que não se ouve o baixo, para alcançarem a referida “crispness”, outros conseguem “embrulhar” os graves de tal forma que o disco perde toda a sua força e acutilância. Quando começámos a falar sobre nomes para misturar e masterizar, o Filipe Marta da Avantegarde sugeriu imediatamente o Jens Bogren, que sendo muito conceituado, é super acessível e demonstra uma mente muito aberta – já fez discos de vários estilos e os trabalhos dele são todos diferentes uns dos outros. Quando falámos com ele, a resposta positiva foi imediata e criou-se uma boa sinergia entre a produção do Samuel Rebelo e os dotes de mistura e masterização do Jens.
3. O disco tem um trabalho gráfico espectacular. Como chegaram a um conceito tão libidinoso?
Durante estes anos que estamos juntos, a “família” Miss Lava tem vindo a crescer. Para chegar até aqui nós contámos muitas vezes com uma ajuda de várias pessoas amigas da banda. Uma dessas pessoas que destacamos é o designer José Carlos Mendes. Foi ele que surgiu com este conceito em conjunto com o Raffah. A ideia era fazer algo que tivesse muita força em termos de significado, mas que ao mesmo tempo tivesse a ver com o universo da banda. A escolha deste conceito foi um risco assumido por todos. Uma das coisas que mais nos entusiasma como Banda, é fazer coisas diferentes, fora do standard, e para isso tentamos dar a quem colabora connosco, total liberdade criativa. Isso torna o nosso trabalho mais rico. O facto de o José Carlos ser uma pessoa extremamente acessível e talentosa torna isso ainda mais fácil. Ele já tinha trabalhado no nosso EP de estreia e o resultado tinha sido fantástico, por isso, tinha que ser ele a fazer também o álbum, que nós, também achamos que o trabalho está espectacular.
4. Este não é o vosso primeiro registo, o primeiro EP saiu em formato vinil, algo pouco habitual num mundo cada vez mais virtual. Trata-se de alguma pedrada no charco? Preocupa-vos o desaparecimento dos formatos convencionais?
Não diria uma “pedrada no charco”. Todos nós crescemos ao som do vinil e este é um formato que está a voltar com algum peso. Na altura pensámos que lançar um CD só com quatro músicas não seria muito atractivo para ninguém. Por esse motivo, achámos mais relevante disponibilizar as músicas para download no myspace e lançar o EP numa edição limitada de 500 cópias em vinil vermelho com a capa a desdobrar-se em poster. Muitos dos compradores do disco nem têm gira-discos. Compraram pela beleza da peça em si. Em relação aos formatos convencionais, acreditamos que não vão desaparecer assim tão cedo. Os formatos digitais nunca os conseguirão substituir por completo. Apesar dos formatos digitais estarem cada vez com mais saída, a tendência natural das coisas é, mais cedo ou mais tarde, irmos buscar as coisas ao passado, assim acontece, com o vinil, assim acontece com tudo um pouco, música, moda, design, etc...
5. Portugal não tem ainda grandes tradições nos campos do stoner-rock, mas nos últimos anos parece que o mostro está a crescer. Como vêem esta evolução?
Sim, é verdade, já temos em Portugal algo que se pode chamar de movimento stoner-rock. Já tivemos oportunidade de conhecer, criar amizade e partilhar o palco com várias bandas desse movimento. Todas elas fantásticas. Mas Portugal tem também pequenos grandes monstros a surgir. É incrível como miúdos tão novos surgem com projectos, onde a sua maior influência são bandas que deixaram de existir quando eles nem tinham sequer nascido. O Stoner-Rock o Heavy–rock , o rock em geral em Portugal está sem dúvida no bom caminho! Esperemos que assim continue. Dá-nos particularmente gosto ver cada vez mais e melhores projectos nacionais que não ficam nada a trás do que se faz lá fora.
6. Já tive oportunidade de vos ver tocar [In Live Caffé, Moita], a amostra pareceu-me muito electrizante. Parece-me que o disco foi talhado para tocar ao vivo de fio a pavio. Estarei errado?
Exacto, Blues for the Dangerous Miles é claramente um disco pensado para se tocar ao vivo. Apesar de acharmos que o disco consegue transmitir toda a nossa energia, achamos que ao vivo as nossas músicas ganham uma força extra porque para nós cada concerto é como se fosse o último, deixamos tudo no palco...
7. Nesse concerto tivemos direito a guitarra partida…
... pois ehehe. É mais uma prova que tocamos como se fosse a última vez. A excitação era tanta que acabou dessa forma. O Raffah já há muito tempo que andava a conter–se e nessa noite em especial finalmente lhe saiu tudo cá para fora... eheheh. Pena não ter sido num concerto para milhares de pessoas. De certeza que teria sido mais espectacular!
8. Tocaram no fim-de-semana passado com a instituição Fu Manchu. Suponho que a chamada para a primeira parte vos tenha agradado. Que tal correu isso?
Sim agradou-nos bastante. Este concerto foi muito especial para nós. Não só por tocar com uma banda de culto para nós, como também por termos a oportunidade de mostrar a nossa música para um público que se vai identificar mais facilmente com Miss Lava. O concerto em si correu muito bem. Apesar de começarmos muito cedo (21h30) o Santiago Alquimista por essa altura já apresentava uma sala bem composta, indicador de que havia muita gente também com curiosidade para nos ver. Os Fu Manchu só tocavam às 22h30 e quando acabámos o nosso pequeno set de 35 minutos, já tínhamos a sala praticamente cheia. A resposta do público foi muito boa, toda a gente nos recebeu muito bem e no final até deu para esgotar os CD que levámos para vender. Enfim, uma noite para não esquecer.
9. E depois de “Blues For The Dangerous Miles”, que podemos esperar dos Miss Lava? Disco novo?
Podem esperar o ano do rock n’roll disaster!!!! Hehehe... Muitos concertos, cá dentro e lá fora! Vamos estrear o nosso novo vídeo para o tema “Don’t Tell a Soul” no final de Março. É um concept vídeo realizado pelo alemão Joerg Steineck (realizou o documentário Lo Sound Desert, com membros de Unida, House of Broken Promises, ex-QOTSA e ex-Kyuss) e foi inteiramente filmado em Berlim.
Estamos ainda em pré-produção para outros vídeos, e claro, vamos querer gravar o novo álbum a fechar 2010 para lançá-lo em 2011.
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